sexta-feira, 24 de maio de 2013

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM DAVID FORBES

David Forbes, em 2013
Com apenas dois álbuns no currículo, os canadenses do Boulevard deixaram sua marca no universo dos bons sons. Praticando um AOR sofisticado, a banda tinha no vocalista David Forbes um dos grandes diferenciais,e ainda hoje é surpreendente que a carreira do Boulevard não tenha se estendido.

Após o lançamento do excelente "Into The Street", todos os integrantes da banda despareceram. Mas neste ano, Forbes ressurgiu como um dos vocalistas convidados no projeto Charming Grace, capitaneado pelo italiano Pierpaolo Monti. E conversando com Monti sobre seus projetos, falamos sobre Forbes e sua banda, quando Monti me perguntou: "você gostaria de entrevistar David?"

Depois de uma resposta obviamente afirmativa, eu estava em contato com Forbes, que gentilmente concordou em conceder sua primeira entrevista para o Brasil e com exclusividade aqui, na AORWatchTower. Portanto, caríssimas e caríssimos, preparem-se para revelações sobre não apenas o Boulevard, mas também sobre o cidadão que interpretou as grandes canções de uma das melhores bandas de AOR canadense. 

Enjoy...

Você esteve afastado do cenário desde o início da década de 90, David. O que tem feito desde então?

David Forbes:
Quando decidi parar de cantar, em 1991 (para que pudesse estar mais perto de minha esposa e ver minhas filhas crescerem), fiz uma viagem com um amigo e alguns bombeiros que trabalhavam com ele. Começamos a falar sobre isso e resolvi tentar essa carreira. Fui incorporado ao Whatcom County Fire District 7 (na cidade de Ferndale, em Washington) em 1997, e hoje sou um tenente. Eu já tive os dois trabalhos mais bacanas do mundo!


O primeiro álbum da banda, ainda chamada Blvd., de 1988
O Boulevard foi uma das melhores bandas a surgir no Canadá no final da década de 80. Como ela foi formada?

David Forbes: Enquanto eu estava em Calgary, gravando um jingle da cerveja Molson para o campeonato mundial de downhill em 1986, Mark Holden era o engenheiro de som. Ele me telefonou um ano depois e perguntou se eu gostaria de gravar algumas com ele para a MCA Records. Voltei à Calgary e gravei algumas canções e começamos a gravar o álbum em Junho de 1988. Mark Holden, Randy Gould, Andrew Johns e Randall Stoll já estavam na banda, e eu fui o último a chegar, como vocalista. 

O primeiro álbum tem canções mixadas e/ou remixadas por nomes como Humberto Gatica, Bob Rock e Mike Frazer. Eles foram todos trazidos pela gravadora ou escolhidos pela banda? 

David Forbes: John Alexander, da MCA Records, foi quem trouxe todos eles, e nós ficamos muito animados em poder trabalhar como todos. Humberto era um grande nome na época (na verdade, ainda é) e Bob e Mike moravam em Vancouver e já eram ícones na indústria. Os três já trabalharam com os maiores nomes da música mundial.

Outros grandes nomes que participaram do primeiro álbum são Matt Frenette, Rene Worst e Marc LaFrance. Foi fácil reuní-los? 

David Forbes: Na verdade, sim. Todos moravam em Vancouver. Matt estava no Loverboy, que era empresariado por Bruce Allen, assim como nós. Foi bastante simples reunir todos.

O clássico "Into The Street", de 1990
Quando "Into The Street" foi lançado, a banda resolveu mudar o nome para Boulevard, ao invés da abreviação Blvd. que aparecia no primeiro álbum. Qual a razão para isso?

David Forbes: A mudança ocorreu para mostrar um pouco mais de maturidade e também para que fosse mais fácil para as pessoas soubessem quem éramos.

O segundo álbum foi produzido por John Punter e trazia um approach diferente, mais maduro, por assim dizer. Além disso, as canções estavam melhor balanceadas. Todas aquelas mudanças foram resultado da chegada do novo produtor ou apenas a evolução natural da banda?

David Forbes: Foi um pouco de cada coisa. Quando gravamos o primeiro álbum, nunca havíamos nos apresentado ao vivo e não nos conhecíamos muito bem. Antes de gravarmos "Into The Street" estávamos tocando havia quase um ano, tínhamos feito uma tour com o Glass Tiger e Boston e fizemos uma tour própria. Tudo isso nos tornou um grupo mais coeso e nos tornamos verdadeiros amigos. John também foi um produtor maravilhoso e isso nos reuniu ao longo das gravações para o álbum. Toda a sonoridade de "Into The Street" tem muito a ver com John Punter.

Uma pergunta direta: porque o Boulevard acabou? 

David Forbes: Bem, houveram algumas razões para isso. Estávamos na estrada há mais de um ano e eu estava perdendo todo o crescimento das minhas filhas, além da falta que elas e minha esposa faziam. Eu estava fazendo o que sempre havia sonhado mas o preço a pagar era muito alto. Além disso, o Boulevard estava decidindo o que fazer e, relação ao nosso empresário e haviam outros conflitos internos, então resolvi sair e ficar com a minha família.

O tenente Forbes em ação
Nos últimos anos, temos visto uma enxurrada de "anniversary editions", sempre trazendo b-sides e/ou material inédito das sessões de gravação. Há algum material do Boulevard ainda inédito?

David Forbes: Nós tínhamos excelentes canções que não foram incluídas nos álbuns, mas não sei quem as tem hoje, Algumas seriam ótimos singles

É inegável que a internet se transformou em uma ferramenta poderosa para ajudar bandas e artistas a divulgar seu material globalmente. Se já tivéssemos a internet, na época em que o Boulevard estava ativo, como a temos hoje, você acha que o destino da banda teria sido diferente?

David Forbes: A década de 80 foi muito bacana e divertida que acho difícil pensar que a internet teria feito as coisas melhores, mas é uma ferramenta global que permite levar suas canções ao mundo todo. O material do Boulevard vem ganhando destaque novamente e sendo ouvido por uma nova geração graças à internet e estamos conversando agora por causa dessa ferramenta também. Não posso afirmar que o destino da banda teria sido diferente, mas é algo a se pensar... 

Com todas as reuniões que temos visto nos últimos anos, há alguma chance de isso acontecer com o Boulevard

David Forbes: Eu não falo com os outros caras há muito tempo. Mantivemos contato por algum tempo, mas aos poucos deixamos de nos falar e a vida seguiu em frente. Seria muito bom rever todos e quem sabe, fazer um show. Quem sabe...

David, foi um grande prazer falar contigo. Lhe desejo o melhor em seus projetos futuros e espero falar com você novamente em breve.

David Forbes: A época que passei com o Boulevard guardo com carinho. Pude conhecer pessoas e ir à muitos lugares que poucas pessoas no mundo já foram. Cada vez que ouço uma de nossas canções ou assisto algum vídeo eu sorrio e lembro com carinho daquela época. Agradeço a oportunidade de falar com você sobre aquela época, e espero conhecê-lo pessoalmente para que possamos conversar mais. Até lá, rock on, meu amigo!

RECOMENDAÇÃO DA SEMANA

No início da década de 80, o renomado vocalista Tommy Funderburk e o baterista Bob Wilson formaram o Seawind, projeto que em 1984 foi renomeado The Front. Três anos depois, a dupla rebatizou seu projeto de What If e, para compor o lineup, chamaram o ótimo tecladista e saxofonista Larry Williams. O trio lançou apenas um álbum em 1987, onde apresentavam uma base AOR envolta por elementos do melhor westcoast. O resultado foi um álbum bastante equilibrado e de sonoridade diferenciada. Há muito fora de catálogo, hoje esse álbum pode ser encontrado em sites como o eBay com preços variando entre U$60,00 (veja aqui) e U$99,95 em sua versão japonesa (veja aqui).

O álbum abre com "What If", um excelente radio friendly rocker onde Mr. Funderburk desfila sua versatilidade quase sobrenatural como vocalista. Me agrada demais o arranjo e andamento dessa canção, especialmente as guitarras e teclados bem distribuídos (assim como os metais sintetizados) e o refrão marcante. Uma belíssima canção para abrir os trabalhos e que figura entre os grandes destaques desse álbum, que segue com a descomunal "If This Is Love", um radio friendly AOR de primeira linha. O arranjo envolve aos poucos, apresentando uma base de teclados inofensivos que revelam gradativamente o baixo e bateria. Quando as guitarras se apresentam estamos a um passo do refrão explosivo, onde Mr. Funderburk nos brinda com um pouco de seus inconfundíveis vocais. Gosto muito do andamento e métrica dessa canção que considero um dos grandes destaques do álbum. Volume máximo e nenhuma moderação para ouví-la, assim como a ótima "Perfect World", mid-pacer caprichado e que seria regravado sete anos depois por Freddy Curci. Com exceção de alguns teclados presentes nessa versão do What If, não há muitas diferenças para a regravação de Mr. Curci, mas confesso gostar mais das guitarras e bateria apresentadas nesse álbum. Seja como for, temos aqui outro grande destaque do álbum e que merece volume máximo e múltiplas audições.

Em seguida temos "One Look", rocker bem cadenciado ao longo dos versos e que tem andamento mais dinâmico no refrão. Pessoalmente, prefiro a cadência inicial, onde os teclados interagem perfeitamente com o baixo e guitarras. E apesar de ser uma boa canção, esse tipo de variação no andamento não me agrada normalmente, mas deixo à vocês a tarefa de ouvir e tirar suas próprias conclusões. Seguimos com "Ride The Hurricane", rocker  calcado em guitarras e com uma linha de baixo bastante evidente. O arranjo incorpora elementos hi-tech com precisão e que ganham destaque no brilhante refrão, onde Mr. Funderburk mostra novamente a força de seus vocais. Temos aqui outro destaque do álbum que tem "She Rocked My World" na sequencia, um rocker hi-tech onde o baixo tem grande destaque, sendo acompanhado por guitarras precisamente distribuídas e teclados ocasionais. Vale destacar o solo de saxofone, que vai de encontro à toda aura hi-tech que envolve essa canção. Se essa canção não lhe agradar na primeira audição, tente novamente. Ela vai lhe conquistando aos poucos, pode apostar...

What If: Wilson, Williams e Funderburk
Seguindo a mesma linha hi-tech, o mid-pacer "Love Is A Fire" se apresenta com uma linha de baixo intermitente, acompanhada de perto por uma bateria eletrônica e teclados bastante evidentes. Me agrada a onipresença do baixo ao longo dos versos, que são ocasionalmente pontuados por guitarras. Se você curte essa sonoridade hi-tech, essa canção vai lhe agradar, com toda certeza. Com um arranjo mais suave, a ótima "When Right Is Wrong" se apresenta com seus teclados e baixo na linha de frente. Mais uma vez, Mr. Funderburk arrasa com seus vocais sempre precisos, especialmente no refrão. Aponto essa canção como outro grande destaque do álbum, assim como "Turn And Walk Away", rocker que carrega as mesmas características hi-tech de algumas das canções anteriores, onde baixo e teclados tem mais destaque e as guitarras funcionam mais como um ponto de união entre as partes. Mas não entenda isso como demérito, é simplesmente um approach diferente e que, quando executado com perfeição (como é o caso aqui), funciona sem problema algum.

Em resumo, caríssimas e caríssimos, o álbum do What If se divide em dois momentos bastante distintos. Ao longo das primeiras três canções, o trio mostra seu lado mais AOR, sendo que as duas canções seguintes fazem a transição entre o AOR e a sonoridade hi-tech, que acaba predominando a  parte final do álbum. E nessa parte final, não é difícil lembrar dos melhores momentos de Mr. Mister e Starship, especialmente entre 1994 e 1987. Quem já tem a sorte de contar com esse álbum em sua coleção sabe da sua qualidade, e quem ainda não tem deve arriscar sem medo. Com a qualidade inquestionável dos integrantes e participantes do What If, é difícil errar com a aquisição desse material. Altamente recomendado...

WHAT IF - What If
Released in 1987 via BMG Funhouse (Japanese Pressing)
Cat. # BVCM-37165

Tracklist
01 What If
02 If This Is Love
03 Perfect World
04 One Look
05 Ride The Hurricane
06 She Rocked My World
07 Love Is A Fire
08 When Right Is Wrong
09 Turn And Walk Away

Lineup
Tommy Funderburk; vocals
Larry Williams: keyboards, saxophone
Bob Wilson: drums

Guest Musicians
Dann Huff: guitars
Michael Landau: guitars
Jakko M. Jakszyk: guitars
Larry Klein: bass
Paulinho Da Costa: percussion
Bill Champlin: backing vocals
Bob Carlisle: backing vocals

AVISO

Devido as chuvas aqui o sul da Terra Brazilis , não teremos a Recomendação Da Semana hoje. Retornaremos em breve...