segunda-feira, 28 de novembro de 2016

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM PAUL LAINE

Nome mais que reconhecido no universo dos bons sons, o canadense Paul Laine despontou para o universo dos bons sons com "Stick It In Your Ear", seu primeiro álbum solo. Depois disso, teve uma gloriosa passagem pelo Danger Danger, Shugaazer, pelo projeto com Andre Andersen e David Readman e Darkhorse. Depois de dois anos em silêncio, Laine retorna no The Defiants, onde se reuniu com Bruno Ravel e Rob Marcello, ambos seus ex-colegas no Danger Danger, em um dos mais festejados álbuns de 2016. Com uma carreira tão rica, assunto não seria problema e Paul Laine gentilmente concordou em conversar comigo sobre sua caminhada até agora, mas também refletindo sobre o passado e olhando firme para o futuro.

Enjoy...

01 Agora que o álbum do The Defiants já está no mercado, vocês esperavam que ele tivesse uma aceitação tão grande?

Paul Laine: Quando me juntei ao The Defiants tinha expectativa zero em relação a receptividade do público. Eu apenas queria compor o melhor possível. Eu sempre tentei escrever cada álbum que gravei como se fosse o último. O mais inspirador e totalmente inesperado em relação a esse álbum foi o carinho que eu, Bruno e Rob temos recebido. Estou impressionado com isso. Me faz sentir orgulho por meus companheiros de banda também.

02 Não há dúvidas de que o álbum soa muito como Danger Danger (em minha resenha escrevi que aquele era o melhor álbum que o Danger Danger nunca lançou). Essa sonoridade foi o resultado natural da colaboração com Bruno Ravel e Rob Marcello ou foi algo planejado, de alguma maneira?

Paul Laine: Eu acho que é uma conclusão lógica. Bruno tem uma certa sensibilidade como compositor e eu também tenho. A maneira como abordamos a composição do álbum não nos permitia tentar sr qualquer coisa. Literalmente, acordávamos todo dia e começávamos a escrever. Temos um certo estilo para escrever, com foco nas melodias e um certo tipo de energia. Um desejo de criar algo qu soa épico e real. Eu sempre me questiono: ''Que tipo de álbum e banda eu gostaria de ver e ouvir ao vivo?''. É essa resposta que me guia. Eu deixo que meu adolescente interior responda àquela pergunta e deixo que o homem grave o álbum. Faz sentido? Para mim faz...

03 Como foi o processo de composição? Vocês chegaram a se reunir ou foi tudo feito via internet?

Paul Laine: Nunca estivemos na mesma sala, tudo aconteceu via internet. É preciso lembrar que Bruno e eu trabalhamos juntos por quase 12 anos... não precisamos mais estar na mesma sala para obtermos uma reação qualquer e nenhum de nós se preocupa com o que a outra pessoa pensa, desde que consiga responder a seguinte pergunta: ''Isso presta ou não?''. Se bem que Bruno e eu, durante minha época no Danger Danger, não compúnhamos juntos (Bruno escrevia sempre com Steve West, e eu escrevia sozinho). E isso não me intimidou nenhum pouco, o que foi ótimo. Ambos adotamos a mesma atitude na hora de compor. Não havia lugar para ego, apenas para boas ideias. Na verdade, a falta de preocupações não nos deixava preocupados em magoar ninguém. É uma postura essencial, porque mostra que música é o mais importante e ninguém precisou segurar a mão do outro.

Com Bruno Ravel e Rob Marcello no The Defiants
04 O The Defiants tocou no Frontiers Festival em Abril. Como foi aquela experiência? Quais as suas lembranças do show?

Paul Laine: Estava nervoso e fiquei impressionado com a reação do público. Eu amo a paixão da platéia pela música e pelas bandas que se apresentaram naquele fim de semana. Foi uma bela experiência que deixou grandes lembranças. Como intérprete, eu consigo retribuir aquela paixão o dia todo. Ainda, o show aconteceu em Milão! Se você não conseguir ter uma experiência maravilhosa na Itália, queime sua bagagem, jogue fora seu passaporte e nunca mais viaje! (Risos)

05 Há outros shows agendados ou planejados para a banda?

Paul Laine: Há pouco, tocamos no Rockingham, que foi outro momento fantástico. Cada show que fazemos nos ajuda, porque cada um gera mais interesse e mais ofertas surgem depois que o público nos assiste ao vivo. Já 2017 vai começar promissor porque há alguns boatos envolvendo o nome da banda. Poderá ser mais um ano na estrada se todos os shows oferecidos se concretizarem.

06 Então podemos esperar mais material do The Defiants?

Paul Laine: Bruno está decidido e eu também. Acredito que a Frontiers também esteja.

07 Durante aquele show em Abril vocês tocaram algumas canções do Danger Danger. Vamos voltar um pouco no tempo. Como você entrou na banda?

Paul Laine: A versão curta é a seguinte: Steve e Bruno gostavam do meu primeiro álbum solo e contrataram o engenheiro que trabalhou comigo quando gravaram "Screw It!". Irwin Musper, o citado engenheiro, passou meu número de telefone ao Bruno durante as gravações do álbum do Danger Danger. Eu recebia ligações esporádicas dele. Eu nem fazia ideia dos problemas na banda ou de coisa alguma. Um dia, recebi uma ligação e soube que Ted não estava mais na banda. Acho que estavam em um tipo de encruzilhada, pensando se conseguiriam seguir sem ele. É difícil fazer parte de uma banda. Há muitas personalidades, muitas coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo nas vidas de todos. E sendo um artista solo antes de me juntar ao Danger Danger, eu entendia perfeitamente como era estar no controle. Acho que me viram como uma alternativa menos arriscada e tive grande momentos durante minha passagem pelo Danger Danger.

Com Steve West e Bruno Ravel, circa 1995, em foto
promocional do tenebroso álbum "Dawn"
08 Eu lembro que fiquei chocado e assustado quando ouvi "Dawn". Aquela era uma versão alternativa do Danger Danger?

Paul Laine: Era uma época diferente. O que muitas pessoas não sabem sobre aquele período é que o Danger Danger estava sendo processado pelo Ted. Ainda, o mercado musical havia mudado muito. Eu havia regravado o "Cockroach", mas percebi que aquele álbum estava envolvido em uma ação legal que duraria anos. Ninguém havia me ouvido com o Danger Danger e todos decidimos criar algo completamente novo. Um novo som, uma nova imagem, uma nova direção. Eu estava animado com isso, mais até do que com a ideia de fazer parte do Danger Danger e cantar músicas compostas por outra pessoa. Então, ao longo das gravações de "Dawn", a ideia era essa. E pouco antes do lançamento do álbum, os caras tiveram um surto, achando que ninguém compraria se não tivesse a marca Danger Danger na capa. Pessoalmente, acho que foi um erro mas isso não importa mais depois de todos esses anos. Acontece que eu gosto muito daquele álbum, mas ele foi prejudicado pelo nome da banda e por tudo o que ele representava. Bruno tem remixado algumas coisas daquele álbum e tudo soa espetacularmente bem. "Dawn" foi a única vez em que escrevi com o Danger Danger. Depois, eu apenas entregava minhas canções para cada álbum.

09 Mas a banda acertou a mão com "Four The Hard Way", "The Return Of The Great Gildersleeves", "Cockroach" e "Live And Nude". Em cada um desses álbuns, fica claro que você estava absolutamente confortável na posição de vocalista do Danger Danger...

Paul Laine: Absolutamente. Quando o assunto é música e performance, eu me entrego completamente.. Afinal de contas, eu nasci para fazer isso. Me sinto confortável no palco, como se estivesse em casa. Só me sinto nervoso e extremamente tímido quando vou de encontro ao público, se bem que ninguém sabia disso (risos). Sempre busco ser extrovertido... mas se não estou em tour, sou o contrário disso. Os anos que passei no Danger Danger foram fantásticos e lembro com carinho de quase tudo. No fim das contas, na minha linha de trabalho, você tem sorte se consegue manter as amizades depois de trabalhar junto com outras pessoas por tantos anos. A maioria não conseguem infelizmente. Me considero afortunado por ter vivido as coisas que vivi com o Danger Danger.

10 No próximo ano o fantástico "Four The Hard Way" completará 20 anos e o tenho como um dos melhores e mais consistentes álbuns do Danger Danger. Quais as suas lembranças e impressões daquele álbum?

Paul Laine:  A coisa de que mais lembro sobre aquele álbum é da mixagem no verão, em New York. Bruno ainda morava em um apartamento em Rego Park, em Queens. Isso na época em que mixávamos tudo analogicamente e tínhamos que ensaiar na mesa para completarmos a mix. Nada automatizado, apenas eu e Bruno e Steve mexendo nos faders. Bruno tinha comprado um aparelho de ar-condicionado, mas me lembro de suar muito naquele apartamento. Também usávamos uma Polaroid para tirarmos fotos da configuração do equalizador, porque se precisássemos remixar alguma coisa, poderíamos retomar do início. Totalmente 'old school'... (risos).

Com Bruno Ravel e Steve West no Dange Danger, em 2000
11 Acredito que deve ser muito gratificante saber que os fãs do Danger Danger não o vêem apenas como um substituto do Ted Poley, mas sim como um dos vocalistas da banda, propriamente dito. Foi difícil lidar com a sombra de Ted (por assim dizer) no início da sua caminhada com a banda...

Paul Laine: Nem tanto com a sombra do Ted. O mais estranho para mim foi ter uma carreira anterior como artista solo e um contrato com uma grande gravadora antes de me juntar à banda. A armadilha naquela época era o fato de eu ter pouco mais de 20 anos e ter todo o desafio que o trabalho impunha pelo fato de ingressar em uma banda já estabelecida, quando antes disso, era eu quem dava as cartas. Foi difícil ter que segurar a língua todos aqueles anos em respeito ao relacionamento artístico de Bruno e Steve e também em relação a ideia de ser voto vencido. Eu queria continuar a fazer tours e a trabalhar o máximo possível e o Danger Danger não operava naquele formato.

Eu estava acostumado a fazer shows o tempo todo e a trabalhar duro na estrada para manter meu nome em evidência e na cabeça das pessoas. Muitas vezes eu achei que a banda se valorizava muito em relação a shows e, apesar de ser 1/3 da banda, na verdade não era. As decisões eram tomadas e depois passadas a mim e raramente me perguntavam alguma coisa antes. Eu entendia isso, é claro, e ficava quieto no meu canto. Se eu estivesse no lugar do Bruno ou Steve eu teria agido da mesma maneira. Eles construíram o Danger Danger. Era uma coisa deles.

Pergunte a qualquer novo integrante em uma banda conhecida como as coisas funcionam e eles lhe contarão uma história semelhante. Em relação ao Ted, serei franco: ele é um vocalista excelente. Nós temos estilos vocais muito diferentes, não há como comparar. Nunca senti aquela aura de competição, sabe? Sempre me preocupei em fazer a minha parte, em passar a minha mensagem e oferecer o meu melhor. Se você gostar, ótimo! Se não gostar, ótimo também. Você não pode ser tudo para todos e nem deve tentar ser. Caso contrário, nunca descobrirá quem você é.

12 Você consideraria o convite de voltar ao Danger Danger se Bruno reativasse a banda?

Paul Laine: Não! Mas eu participaria de uma reunião se Ted estivesse envolvido. Como em um show onde ambos cantássemos canções de sua respectiva época. Acho que seria uma festa para os fãs e só faria isso caso Ted também aceitasse.

13 E olhando ainda mais para trás, seu segundo álbum solo completou 20 anos agora em 2016, enquanto "Stick It In Your Ear" completou 26. Como você vê esses álbuns hoje, depois de tato tempo desde que foram lançados?

Paul Laine: Sobre o segundo álbum, não lembro nada em especial. O primeiro álbum não foi lançado nos anos 80, mas sim em 1990. Muita gente se confunde em relação a isso, mas eu entendo. Tenho muito orgulho daquele álbum como tenho orgulho de cada trabalho que gravei o longo dos anos. É o registro de um período da minha vida. Representa o que eu sentia naquele momento, tantos anos trás. A inocência, a positividade, a esperança... todas essas coisas são como uma cápsula do tempo musical. O fato é que, enquanto compositor, você tende a escrever sobre as coisas que vive, Meus álbuns são meus diários.

O clássico "Stick It In Your Ear", de 1990
14 Eu tenho aqui uma pergunta enviada pelo leitor Marcelo Teixeira. Ele gostaria de saber se você tem muito material ainda não lançado - especialmente da época do álbum "Stick It In Your Ear" - e se você pensa em disponibilizar esse material em algum momento.

Paul Laine: Eu tenho muita coisa daquele período, mas não lançarei nada. Me desculpe, Marcelo (risos). É que eu vejo da seguinte maneira: você gostaria que sua mãe lançasse todos os seus desenhos rabiscados que você fez na escola como se fosse obras de arte? Pois é, eu também não...

15 Finalmente, e de maneira abrangente, como você analisa sua carreira, tendo participado mais de projetos do que lançados álbuns próprios, e mesmo assim tendo construído um nome respeitado dentro do cenário AOR/Melodic Rock?

Paul Laine: Eu nunca parei de trabalhar o suficiente para pensar a respeito. Na verdade, sempre estou procurando pela próxima canção,pelo próximo álbum, pelos próximos shows. Não importa ser grande, todo trabalho que fiz foi porque sempre quero fazer melhor. Eu já disse que não terminamos álbuns, nós os abandonamos. Quando você termina, já está seguindo em frente. Um álbum é como um intenso caso de amor que você sabe que terá um fim. E quando acaba, você quer tomar uma ducha e se afastar daquilo o máximo possível (risos).

Paul, muito obrigado pelo tempo e atenção. Pessoalmente, significou muito não apenas como entusiasta do AOR/Melodic Rock, mas também como fã de seu trabalho. Espero que possamos ouvir mais material do The Defiants em muito breve e, quem sabe, assisti-los aqui no Brasil. Lhe desejo o melhor e as portas da AORWatchTower estão sempre aberta a você

Paul Laine: Muito obrigado, Juliano. Foi uma entrevista excelente! Quero expressar minha gratidão aos brasileiros que sempre demonstraram respeito e carinho ao longo dos anos. Suas mensagens nas mídias sociais e os encontros depois dos shows para os quais vocês viajam de tão longe para assistir significam muito e me emocionam bastante. Os brasileiros expressam suas emoções a respeito de música de maneira tão intensa que eu sempre senti uma conexão com isso. Meu muito obrigado a vocês por isso.

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